quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Compaixão

Que bom que o tempo abriu. Os raios solares vespertinos espantaram as nuvens carregadas para se lamentarem lá pra lá, bem longe do meu encontro e da minha vida. Uma senhora idosa atravessa a faixa de pedestres vagarosamente, utilizando seu guarda-chuva na função bengala. Por trás do para-brisas ainda vejo mais transeuntes passarem; algumas crianças, alguns adultos, um cara parado fazendo malabarismo com garrafas vazias de vinho, uma menina loira chorando inconsolavelmente no ponto de ônibus e borrando a maquiagem tanto que dá pra notar daqui, um cachorro seguindo o fluxo de humanos, duas crianças conversando e rindo com mochilas nas costas, um casal sorridente de mãos dadas ao seu filhinho para atravessarem a rua em segurança, e mais gente do dia-a-dia se locomovendo pela terceira dimensão.
                Quem bom que o semáforo abriu. Não deu nem tempo de o malabarista vir pedir dinheiro pelo espetáculo a que nem assisti direito. De qualquer modo, estou de janelas fechadas, me deleitando com meu ar condicionado. Solto o pé da embreagem e depois do freio. Vou pisar no acelerador e o carro morre.
                Claro que morre.
                Giro a chave na ignição, pisando na embreagem e no freio, e daí solto primeiro do freio e então piso no acelerador, ao passo que livro gradualmente a pressão que faço com o sapato social sobre a embreagem, e assim dou uma partida e arranco, faço uma conversão à esquerda sem dar seta e já piso de volta na embreagem pra mudar pra segunda marcha. Meu carro tem ar condicionado, mas não tem direção automática.
                Estou muito aéreo hoje.
                Tive sorte de ter dado um probleminha na linha de produção da fábrica hoje de manhã, o qual ainda não arrumaram. A qualquer momento meu patrão pode me ligar e solicitar meu traseiro de engenheiro lá para botar ordem no lugar e verificar o andamento das coisas.
                Nossa, estou aéreo mesmo! Meu carro não tem “câmbio automático”, e não “direção automática”. Isto não existe, seu imbecil mentecapto confuso!
                Então, assim que o cara me ligar vou ter que realocar prontamente meu traseiro lá, senão ele vai quebrar um azulejo na minha cabeça assim que eu pisar naquela espelunca. Meu chefe é muito estressadinho! E, veja bem, eu disse “espelunca”, mas sou muito grato pelo meu emprego e pelo meu terno engomadinho. Até hoje eu não sei por que eu preciso vestir traje social completo – incluindo paletó – para trabalhar na firma, visto que todo dia, quando chego em casa, tenho que bater o pó de argila triturada que havia se grudado por eletroestática a partir do pó de argila triturada em suspensão no ar. Mas, vá perguntar pro meu patrão por que é que eu tenho que usar terno completo... Vá perguntar...
                Sério, vá lá perguntar pra ele.
                Sério, confie em mim! Pode perguntar pro cara.
                Ele vai levar na boa. Ele vai te responder na boa.
                E quando você virar as costas pra sair do escritório limpo dele vai levar uma porcelanatada gigante na nuca capaz de macerar o crânio.
                O cara adora ter sua autoridade questionada.
                Agora dou seta pra direita e faço a devida conversão. Cuido para não resvalar com o farol na barriga protuberante de uma grávida que desponta na beirada da calçada, ali sobre o meio-fio, prestes a atravessar assim que eu passar com meu carrão por ela.
                Passei por ela.
                Baixo o negocinho de cima, do teto do carro – aquele negocinho com um espelho –, e verifico se o meu cabelo – ou o que sobrou dele, graças à calvície despontando – está de acordo. Meu gel sabor tutti-frutti está ainda funcionando, desde manhã, pois hoje não suei tanto, porque hoje deu um probleminha na linha de produção da firma que fez com que, desde manhãzinha, eu não precisasse trab...
                – CUIDADO, FILHO DA PUTA! – uma voz lá fora grita.
                Dou uma guinada no volante e bato a testa no negocinho do teto – tomara que eu não tenha desarrumado a cabeleira maneira. Olho para trás, desesperado, e vejo um homem mostrando o dedo do meio pra mim, seu braço erguido lá em cima para deixar bem evidente o seu descontentamento. Olho para frente e engulo em seco. Meus dedos estão apertando firmemente a borracha do volante, de modo que suas articulações reclamam do esforço.
Estou muito apavorado, hoje. Tenho que me recompor.
Afinal, tenho um encontro com meu amorzinho daqui a pouco.

(...)

                – Como você está bonitinho, hoje.
                – Obrigado – beijo a sua mão, delicadamente.
                Ela abre um sorrisinho daqueles que povoam aqueles instantes inebriados logo antes de cair num sonho erótico lindo. Devolvo sua mão com suavidade à mesa, e deixo a minha sobre a dela, selando nosso momento nas memórias do coração.
                Estamos numa cafeteria e já fizemos nosso pedido. O aroma doce e denso de café se acomoda em minhas narinas. Inspiro oxigênio para inflar meu peito em sossego divino.  Eu estava muito aéreo, hoje. Depois que eu vi Clementina – seu nome tão grácil quanto um café quentinho a molhar as papilas da minha língua –, o pavor foi embora como uma nuvem negra carregada que ninguém quer arredando o pé da vista de todo mundo.
                – Que bom que deu certo de a gente se ver, meu neném – ela diz, olhando-me nos olhos e eu nos dela, na sua voz fina, aveludada e apaixonante. – Digo, não foi muito bom ter explodido aquela esteira carregada de azulejo... Mas...
                Ela se perde toda e fica encabulada com sua trapalhada. Bobinha.
                – Tudo bem, eu entendi o que você quis dizer – digo, sereno e sorrindo de canto de boca. – Não foi legal um daqueles porcelanatos ter voado e decepado a cabeça do nosso melhor peão.  Mas foi bom que eu pudesse te ver hoje – completo meu sorriso. – Eu estava com saudades de você, meu bebê.
                Clementina perde toda a vergonha de antes e sorri largamente. Lindinha.
                – Mas a gente se viu antes de ontem – ela diz.
                – E eu acho que isso já é tempo demais.
                – Lindo. Fofo.
                Só está nós dois na cafeteria, sentados de frente um ao outro ao redor desta mesinha de casal.  Ela não é minha namorada, e ela não é minha esposa, tampouco minha noiva. Porém, ela não é menos do que estas três coisas, e sim algo mais, algo grandioso, algo cujo ainda não existe substantivo para categorização de relacionamento. Temos um vínculo deveras forte, mas ainda assim parece que meu passado me segura lá atrás, enquanto ela me espera pacientemente lá na frente, de braços abertos para me acolher num abraço afetuoso.
                Não há muito tempo, eu me divorciei. O nome dela era Ger...
                – Com licença, senhor, senhora.
                O garçom dizendo isto me dá um sobressalto e rompe a nossa bolha colorida Geraldo-Clementina. Não estamos mais sozinhos na cafeteria, e de repente surgiu mais uma dúzia de pessoas sentadas, conversando e batendo talher na louça – como se tivessem prontamente brotados das profundezas recônditas do inferno para atrapalharem meu encontro divino.
– Aqui estão seus pedidos – o garçom coloca o pires e xícara na frente de Clementina. – Para a senhora, um mocaccino. E para o senhor, um cappuccino com adicional de chantilly – e coloca o adicional de chantilly com cappuccino na minha frente.
– Obrigada – Clementina diz, já soprando seu café.
– Obrigado! – dou um baita tapa na mesa de propósito, indignado com a interrupção abrupta.
O garçom fica me fitando, confuso, e logo da meia-volta e vai atender a outros clientes. Dou uma mesada em sua nuca, mentalmente. Volto a olhar para meu amorzinho, logo em minha frente.
– Sabe, eu já te disse que estou apaixonada por você, Geraldo – ela diz, bebericando um pouco do seu café e queimando um pouco seus lábios pequenos. – E você não tem que se sentir pressionado, nem nada, para decidir o que fazer a nosso respeito.
– Tudo bem – consinto, pressentindo o que ela irá dizer. – Só me dê um pouquinho de tempo até superar o meu divórcio. Faz só dois meses e meio que terminamos, e você sabe que foi uma coisa bem violenta e traumatizante. Meu coração ainda está ferido e não possuo uma taxa de recuperação elevada.
Clementina solta um riso abafado.
– O que foi?
– Você e esse seu vocabulário de engenheiro!
– O que é que tem? O que é que eu falei?
Taxa de recuperação – ela responde, rindo. Não tem muita graça, mas o amor faz isto com as pessoas. – Taxa. Quem é que fala “taxa”? – ri um pouco mais. – Só você, mesmo, pra falar um negócio desses.
– Ah, você bem que gosta.
– Sim, sim. Adoro esse seu jeitinho.
Seus cabelos são bastante contempláveis sob a luz do Sol. Que bom que o tempo abriu e os raios solares vespertinos decidiram aparecer.
– Aquela mulher era louca... – comento.
Nós dois rimos juntos.
Jogo meu corpo levemente para trás, recostando-me na cadeira e curtindo o momento. Cogito tocar no meu café, mas penso que pode estar muito quente. Clementina tenta novamente sorver um pouco de seu mocaccino sem chantilly adicional, nem chantilly na dose padrão – ela não gosta de chantilly. Assisto à sua tentativa. Assim que aproxima a orla da xícara do lábio previamente queimado, eu sinto, por algum motivo inexplicável, que ela está pensando que ainda está muito quente; e concluiu isto somente pelo vapor onírico quente da bebida adocicada a beijar-lhe a pele ao redor de suas delicadas narinas clarinhas.
Devolve a xícara ao pires.
– Eu estive pensando, na vinda pra cá, numa coisa que está me encucando demais – digo, relaxado na cadeira.
– Diga, meu bem – Clementina se aproxima para me ouvir melhor.
– Na nossa vida a gente sempre segue uma rotina, aquele procedimento que só nós temos e que só nós sabemos de cor. Obedecemos a uma mesma sequência de ações, a um mesmo algoritmo de operações, para chegar a um resultado, pois temos certeza, com base no retrospecto, de que aquela é a rota que dará o resultado pretendido. Ou, simplesmente, seguimos a mesma rotina porque é mais cômoda, ou porque temos medo que não existam outras corretas – coço meu queixo de barba feita. Esqueci-me de desabotoar meu paletó ao sentar, então o desabotoo agora.
– Sim, sim – Clementina anui com a cabeça, demonstrando genuíno interesse nas íris.
– Então, na verdade, o que está bagunçando minha cabeça é o seguinte – ajeito-me na cadeira, sentando mais pra frente. – Sempre seguimos uma sequência específica de partes do corpo quando vamos tomar banho. Por exemplo, eu primeiro lavo a barriga, daí as particularidades, daí o rosto...
Paro pra refletir um pouco: nossa, eu lavo o rosto depois de lavar a bunda! Que horror!
– Daí eu lavo o cabelo e tal. Enfim... O que eu acho estranho é que nem sempre foi assim. Alguma coisa aconteceu na vida que, de repente, – estalo o dedo – mudou tudo. A sequência mudou, por algum motivo, e sem eu perceber. No dia seguinte, eu estava obedecendo a um algoritmo extremamente diferente daquele do dia anterior, mas eu nem me percebi, na hora, de que eu havia mudado a ordem das coisas. E eu suspeito que isso tenha acontecido mais vezes na minha vida – olho para o céu azul lá fora, por através da vitrine. – Pode parecer estranho o que eu estou falando, mas com isso dá para perceber como as mudanças na vida são sutis. A gente fica melhor de repente, sem nos lembrarmos que estávamos bem mal antes, e por algum motivo que não sabemos exatamente – olho nos olhos de Clementina. – Por exemplo, antes de você chegar na minha vida eu estava bem deprimido, e já no outro dia eu estava alegre. Acordei alegre, sorrindo, sorrindo! E, me pergunte: Geraldo, você sempre acordava triste?
Clementina fica me encarando, e eu fico devolvendo o olhar para ela.
Clementina beberica um pouco de seu café, agora resfriado – mas, de qualquer modo, ela está tão vidrada que nem perceberia caso queimasse a boca.
Ficamos nos encarando por uns segundos, sem ninguém dizer mais nada.
– Em? – pergunto.
– Oi? – pergunta.
Silêncio entre nós.
– Pergunte – digo.
– Ah, – diz. – Desculpa – ri sozinha, nervosa. – Geraldo, você sempre acordava triste?
– Sim. Eu sempre acordei triste na minha vida triste – desabafo, esvaziando o peito que inflei há vários minutos atrás. Coloco os cotovelos sobre a mesa – Quando eu te encontrei naquele corredor, no mercado... Quando eu sem querer colidi com o carrinho com truculência em você e acabei derrubando você sobre a prateleira de balas de gelatina... Você tentou se segurar em algo sólido para evitar a queda, mas cair era inevitável naquele momento e você, então, acabou levando metade e um pouco mais da prateleira chão abaixo, contigo. Bateu a nuca, tive que te levar correndo ao hospital, largar toda a mercadoria, que deve estar até hoje largada lá naquele carrinho fajuto de rodinha torta, para fazer uns pontos no local do corte.
– É, foi um corte feio.
– Aham, você quase morreu na hora.
– Verdade, doeu pra caralho.
– Sim, eu percebi na hora em que você gritou.
– Boa tarde, senhores.
Olhamos para o lado, subitamente assustados. Um homem negro de óculos escuros se sentou numa cadeira ao nosso lado, a qual nem estava aqui antes, juntando-se a nós na mesa sem nenhum convite prévio.
– Oi? – pergunto, incrédulo. – Senhor? Oi? Por acaso você se perdeu dos seus pais?
O homem negro não diz nada. Não está olhando para nenhum de nós, mas eu e Clementina nos entreolhamos, perdidos demais nesta cena.
– Os relacionamentos são coisas divinas, um presente de Deus ao homem – o homem de repente diz. – Vocês não precisam firmar o contrato humano de casamento, pois já estão casados no universo, e é isso o que importa.
– O que você está falando? – Clementina pergunta.
– Vocês dois possuem algo bonito, raro de se ver hoje em dia. O pessoal, nessa faixa etária em que vocês estão incluídos, não liga muito para os motivos do coração, e por isso acaba se afastando do que realmente importa na vida – o homem agora olha diretamente para mim. – O mundo atual é bombardeado por informações fúteis, por dados de nenhuma valia, e no meio disto tudo as pessoas se perderam e se esqueceram do propósito da vida, que é cuidar um do outro. No meio disto tudo, você encontrou ela, e ela encontrou você – permanece com olhar fixo em mim. Estou me sentindo estranho. – É irrelevante o que acontecerá no futuro entre os dois, pois seus corações já se entrelaçaram lá atrás, quando se conheceram. Sua aura irradia um amor esplêndido. Por baixo desta carcaça de adulto você é uma criança, que se agarrou à sua essência, que sorveu do éter do afeto que permeia a existência.
– Senhor, poderia se retirar daqui? Está nos atrapalhando – digo a ele, em tom firme. – Não me obrigue a chamar o segurança – eu não se se cafeterias têm seguranças.
– Meu filho, não perca seus princípios e não se desgarre das pessoas. O que importa é você se importar com o próximo. Entendê-lo, compreendê-lo, não ignorá-lo. Não queira deixar o outro sofrendo, enquanto você detém um arsenal de compaixão aí, dentro de seu corpo adulto, impregnado à sua alma com paixão. Maturidade não é sinônimo de boa aventurança, tampouco necessariamente uma virtude. Virtude é aprender a ignorar a dor própria do imo e se voltar às necessidades do próximo. Abrace as circunstâncias da vida e não deixe passar em branco o poder de ajudar o outro a viver, de fazer parte da vida do próximo. Ainda não é tarde para você fazer a escolha correta.
– Basta, já deu! – digo, furioso. – Vou chamar o segur...
O homem levanta-se de supetão, arrastando a cadeira com as costas das pernas e balançando tudo de frágil que há sobre a mesa. Ergue a cabeça para a vitrine e anda de lado, que nem um siri tímido. Segue em diante, indiferente aos seus arredores, e passa pela porta de entrada da cafeteria. No momento em que ele pisa seu pé descalço imundo lá fora, no mundo de fora, na calçada...
No momento em que ele sai daqui...
Alguma coisa entra aqui...
Alguma coisa aconteceu na vida que, de repente, mudou tudo.
Pode parecer estranho o que o homem estava falando, mas com isso tudo que aconteceu agora deu para perceber que como as mudanças na vida são sutis. Estou me sentindo muito mais próximo de Clementina, por um motivo que não sei exatamente. Este dia foi um dia marcante. Uma pequena cafeteria, uma pequena mesinha de casal ao lado da vitrine que dá para a rua movimentada da tarde, e um pequeno papo com um homem aleatório... Não sei o que aconteceu, mas estou me sentindo muito bem – melhor do que nunca.
– Clementina – coloco minha mão sobre a mãozinha dela. – O dia em que eu te conheci, foi um dia marcante na minha vida. Você mudou minha vida completamente, e sou muito grato por isto – meus olhos marejam de emoção, meu coração entala na garganta. – Eu só queria dizer que eu te am...
Meu celular toca no bolso. E vibra, vibra bastante. O toque dele é de uma gravação que fiz um dia, de eu arrotando e peidando o alfabeto. Todo mundo que está sentado nas outras mesas olha para cá, espantados. Retiro o celular do bolso e leio o nome na tela, em meio a flatulências e liberações gasosas de boquinha: Marcelo Lazarento.
É o meu patrão me ligando.
– Amor, – tiro o olhar da tela brilhante do meu celular caro e fito Clementina. – Vou ter que voltar pro trabalho.
E eu nem sequer toquei no meu cappuccino.

(...)

                Rimos muito juntos, no meu carro. Estou a caminho de deixar Clementina em sua casa, rapidamente, para então pegar a rodovia e seguir para a fábrica, para terminar este dia esquisito com a cabeça ainda íntegra, não detonada pelas mãos e cerâmicos duros do Marcelo, O Desgraçado. Gargalhamos ao vento – abaixei as janelas e desliguei o ar condicionado –, recordando um ao outro as coisas que o homem estranho nos disse.
                – Será que o cara estava chapado? – pergunto, rindo demais.
                – Talvez estivesse! – Clementina responde, acompanhando meu divertimento. – Agora entendi por que ele estava usando óculos escuros! Devia estar com olhos bem avermelhados de maconha!
                Cuspo uma risada no vidro para-brisas, e logo me inclino, rindo, para limpá-lo com o paninho. Volto a sentar e esterço o volante à esquerda, ligando a seta com antecedência – agora estou bem mais ligado ao mundo, diferentemente de como eu estava antes de encontrar meu neném fofo e bom de cama.
                – Você ouviu o que ele disse: abrace as circunstâncias da vida e não perca tempo, e faça logo parte da vida do outro – ela comenta, se esforçando para puxar no banco de dados do cérebro. – Ou algo do gênero, sei lá.
                – Ok, e o que isso tem a ver com qualquer coisa? – pergunto, sem entender nada.
                – Ué, ele disse que é pra você parar de se enrolar e se casar logo comigo!
                – Com certeza – confirmo, ironicamente.
                – Ele disse também pra você ignorar a dor própria e atender às minhas necessidades. Viu só? Ele entende das coisas! Ele diz que é pra você esquecer o que aconteceu com sua ex-esposa e seguir em frente, comigo, e se casar logo! – ri.
– Com certeza... – confirmo, agora sem nenhum pingo de sarcasmo.
                Pensando bem, aquele cara era bem peculiar, e sua presença era bem bizarra. Ele saiu do nada, depois, e não conversou com mais ninguém. Aliás, eu nem me lembro de tê-lo visto entrar na cafeteria, em primeiro lugar. Sem falar que algo mudou dentro de mim, assim que ele se levantou e se mandou embora. Parecia mais um anjo que tocou as nossas vidas para nos unir, um profeta, um sacerdote místico barbudo descabelado agindo em prol da nossa união, nos casando ali mesmo e naquela exata hora. Selando o nosso amor com palavras.
                – Se bem que... – digo, ainda um pouco enuviado com o que aconteceu conosco lá, naquela mesa. – Ele parecia mais um arauto celestial, um ser divino que simplesmente apareceu ali pra nos aproximar mais.
                Clementina vira o rosto para olhar para mim. A princípio pensei que ela estaria com uma cara de reprovação, pensando que eu sou louco em dizer uma coisa dessas, mas não é isso o que vejo nela. Eu viro o volante e faço uma conversão à direita, bem perto da casinha dela. Consigo ver nas pupilas de Clementina, nas janelas de sua alma, sem a necessidade de ela proferir nenhum som, que ela me entendeu completamente. Eu sei que ela se aproximou mais de mim, depois de hoje, apesar de que já estivera antes loucamente apaixonada por mim – o que deixara bem claro e desambíguo ao me dizer várias vezes, durante estes poucos e intensos dois meses em que nos conhecemos, que me ama.
                Mudo para a quarta marcha.
                – Clementina, eu sinto que estou amando você – digo, terna e singelamente. – Você gostou da nossa tarde juntos?
                Uma mulher berra e o meu carro dá um solavanco violento. Por um momento perco controle da direção, e no outro momento percebo que quem gritou foi Clementina, horrorizada com o que acabou de acontecer. A primeira coisa que faço é meter o sapato no freio, cantando e deixando camadas dos pneus no asfalto atrás de nós. Abro a porta com a mão trêmula e não consigo sair. Esqueci-me de remover o cinto de segurança. Tateio o negócio, à procura do botão para desafivelar o troço, e vejo que a porta do passageiro está aberta. Por um segundo pensei que perdi Clementina, mas depois vejo que ela está correndo até lá na frente, onde uma pessoa está deitada no chão.
                Atropelei alguém.
                Dou um pulo pra fora do carro, mas não consigo sair, porque esqueci o cinto afivelado no troço. Meto qualquer dedo no botão e me libero da pressão no peito. Agora pulo de volta para fora e bato a tampa da cabeça no carro. Lembro-me de Marcelo, e como eu o odeio. Eu não deveria odiá-lo, mas, sim, ajudá-lo a amainar o estresse do cotidiano industrial.
                Um pensamento nefasto percorre a minha cabeça: será que eu atropelei meu patrão?
                De repente já estou quase chegando ao corpo deitado, ao lado do qual Clementina chora, ajoelhada no asfalto. Só está nós dois na rua, sem nenhum outro movimento de carro. E, do nada, já estou ajoelhado ao lado de Clementina, amparando-a, passando a mão em suas costas, porque não gosto de vê-la sofrer. Engulo em seco e, só então, decido olhar para o corpo estirado.
                É uma mulher, e seu peito está subindo e descendo freneticamente. Noto seu desespero em procurar ar tragável, nos seus movimentos repetitivos curtos do peito. Só depois de analisar bem é que vejo que ela está com uma abertura no peito, evidenciando uma costela quebrada, que provavelmente perfurou seu pulmão. Minha cabeça lateja e o mundo mergulha em silêncio completo, dentro do silêncio de antes da rua desolada, como se eu estivesse no lugar daquela mulher sofrendo de sua aflição.
                Observo, catatônico, a fratura exposta horrível, apavorante. De lá jorra sangue pelas laterais do seu corpo, sujando suas roupas e o asfalto. Sua vida esvai por um buraco lancinante, fechando-se em claustrofobia. Ergo meus olhos arregalados ao rosto da mulher, e os olhos dela me encontram no momento certo; incisivos, cortantes, pontiagudos, atravessando a minha carne e penetrando no meu cerne. Atacando meu emocional, sem se importar com meu físico. Os olhos dela, esticados para baixo, quase que estrábicos neste posicionamento, sem conseguir mexer sua cabeça, imploram por ajuda – porque sua boca tartamudeia e não consegue dizer nada, mas só tosse mais da sua essência viscosa vermelha. Mas eu não sei o que fazer. A mulher tem toda sua maquiagem borrada, e gorgoleja no próprio sangue. Clementina está me olhando... Eu nunca vi tanto pavor no rosto de uma pessoa antes... Ela está mais assustada do que a moribunda...
                E a moribunda se rende às circunstâncias impostas pelo universo, fitando o céu cinzento coberto de nuvens com seus olhos agora mortos.
                Continuo encarando o rosto do cadáver diante de nós, e agora é minha vez de tartamudear.
                – Eu... Eu... É... Não... Não s-sei...
                Não consigo formar nenhuma coisa que tenha nexo. Não consigo transmitir mensagens. Não consigo confortar minha companheira com palavras e nem verbalizar e transmitir o meu horror a ela.
                Continuo encarando o rosto da mulher.
                Um rosto familiar.
                Um rosto familiar...
                De repente, dezenas, centenas de pessoas preocupadas brotam do nada ao nosso redor, como se o inferno tivesse chegado em peso a partir do ar; rompido uma membrana mística tênue que separa dimensões paralelas – dimensões que estão tão próximas umas das outras, mas ao mesmo tempo tão distantes. A bolha incolor que envolvia eu e Clementina se estoura, e agora eu percebo que a rua já estava movimentada e nada deserta quando o acidente ocorreu... As vozes dizem “o que aconteceu?”, “Jesus Cristo!”, “Ela se jogou na frente do carro, eu vi!”, “Ela quis se matar, e este homem não desviou a tempo”...
                Agora eu percebo que o mundo nunca foi só nós dois...
                Sempre houveram pessoas transitando por aqui, inclusive quando ainda estávamos no carro e eu mudava a marcha...
                Quando atropelei este rosto triste...
                Era aquela menina que chorava no ponto de ônibus.




sábado, 4 de novembro de 2017

É a vida

Sinto o envolver da brisa do mundo,
Sentimentos florescem em meu imo,
Humanidade abrolha aqui dentro;
Boas-vindas à vida com meu choro.

Coloco coisas na boca miúda,
Aprendo que chorar me dá comida,
Dou aos brinquedos amostra de vida,
Ando em pé, daí vira corrida.

Meu primeiro tombo é quando tombo.
Meu segundo é quando eu me engasgo.
Choro muito quando quebro o brinquedo:
Era meu companheiro favorito.

Faço amiguinhos, com eles sorrio.
Daí tombo no concreto, me arranho...
Choro demais quando quebro meu dedo;
Mas o importante é que eu estou vivo.

Odeio escola, odeio estudar!
Quero ir pra casa brincar! Agora!
Quero... Conhecer aquela garota...
É da minha turma, é muito linda...

Não há nada como o primeiro amor:
Cheio de sonhos, me enche de dor.
É tanto amor que não sei onde por.
Meu coração se partiu, vou morrer...

Agora sou hominho e sei cair.
Os amigos de antes não mais vi.
Meu melhor novo amigo é o Jair;
Ele é meu novo melhor amigo.

Eu passei de ano, Jair ficou.
Estou uma série na sua frente;
Ele se sentava na minha frente,
Vou sentir saudades dele na aula.

Eu comecei a universidade,
Meu amigo se mudou de cidade;
Os caminhos divergem de repente.
Jair já foi. Eu vou sentir saudade.

Na mesma sala a paixão de infância;
Chamo pra sair e a gente sai.
Ela não gostou de mim.  Ela sai.
Outro tchau... Choro igual uma criança.

Reprovei de ano, quero morrer...
“Isso é um assalto”, vou morrer.
Bato o carro; eles vão me matar.
Qual é o sentido? Vou me matar...

Meu primeiro emprego, tenho salário.
“Não vai ter puta pobre na cidade!”.
“Garoto, quando eu tinha sua idade
Também passei por isso. Seja forte!”.

Estou bêbado, estou muito triste...
Estou solteiro ainda, que droga...
No fundo do poço: Só falta a morte...
Ainda moro com meus pais. Patético.

Estou muito triste, meu pai morreu.
Estou alegre!  Comprei minha casa!
Apresento à minha mãe sua nora:
Com ela vou casar! Eu amo ela!

Assino a papelada de divórcio.
Por lei devo manter distância dela.
Nunca mais vi meus filhos. Perdi tudo.
Afundo-me em tristeza e em ócio...

Meu amigo está desaparecido.
Anos se passam. Nunca mais o vi.
Perdi minha mãe. Perdi tudo mesmo...
E prospero muito no meu negócio!

Eu nunca estive tão feliz na vida!
Viajo no mundo com a esposa,
Brindamos aos amigos e saúde.
“Parabéns, é um menino saudável”.

Educamos bem nosso filho lindo,
Ensinamos o que deve saber,
Acompanhamos ele a crescer,
E um dia ele foge de casa.

Eu estou deitado em uma maca.
“Foi um derrame cerebral, senhora”.
Eu sou internado no hospital.
“Ficarei contigo até o final”.

Passo dias encamado, inútil.
Minha vida agora parece fútil.
Aperto a mão de minha companheira:
“Você fez valer minha vida inteira”.

Após anos revejo meu garoto.
Ele chora ao me ver aqui, fraco.
Ele está forte, ele está bonito.
“Vem cá, meu amigo”. Abraço e choro.

Por minha vista passa a vida inteira.
“Socorro! Chamem uma enfermeira!”.
Dou o choro mais intenso da vida...
Adeus, mundo: Uma triste alegria...

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Proibido de ser

Dor na nuca. Claridade. Acho que estou deitado no chão não sei de onde. Aos poucos me alevanto com os braços, terminando por ficar sentado. Olho ao redor e não vejo ninguém, só umas paredes brancas altas. O teto também é branco, e é reto, e dele vem luzes ofuscantes, por isso não me demoro muito com minhas íris aí. Fico de pé, perdido, confuso, estranhado com a situação bizarra. Moscas volantes dançam na minha visão, tanto por causa da breve luminescência, quanto pelo fato de eu ter me içado rápido demais. Fico um pouco tonto, mas já passa ao passo que eu caminho e analiso essa sala vazia de chão também branco. Há apenas uma porta lá na frente, e mesmo com receio não tenho escolhas, visto que é minha única opção para sair daqui, onde é que aqui seja.
            Giro a maçaneta. Abro a porta.
            É um lugar igual ao de antes, contudo a porta está à direita, bem lá na frente. É um lugar vasto. A porta se fecha sozinha atrás de mim e as luzes se apagam quando dou três passos adiante. Um sentimento pesado de claustrofobia me domina, mesmo que o lugar seja demasiado amplo. Por isso eu volto três passos de ré e bato com a nuca na parede. Viro meu corpo e tateio a superfície, em busca da porta de antes. Vou para a direita esfregando a mão, e não encontro nada. Depois volto pela esquerda esfregando e nada. Nada. Corro esfregando a mão até que bato a testa em uma parede perpendicular a esta. Droga. Volto correndo e passando as duas mãos na superfície para o que era para ser a esquerda, indo em sentido ao lado oposto de antes, e novamente bato a cabeça, porém em outra parede. A porta simplesmente sumiu. A angústia começa a se instalar. Ofego pesado. Não sei mais onde era para ser a direita de quando entrei aqui, onde era para ter uma porta para fora daqui, se é que ainda há alguma porta nessa estranheza. Fecho os olhos, e parece que assim tudo é mais claro do que o breu de olhos abertos. Um horror pelo esquisito se apossa de mim e se soma à angústia. Respiro fundo, tentando me recompor, e me recomponho um pouco. Decido percorrer todos os quilômetros de paredes da sala, colado nas paredes, até achar a suposta segunda porta que deveria ainda existir.
            Já não sei mais de nada.
            Não tenho opções senão andar por todos esses quilômetros cegos.
            Enquanto tateio tudo continuamente, uma ansiedade em mim me diz que, já que sumiu uma porta, pode muito bem ter aparecido uma coisa perigosa e misteriosa protuberante nas malditas paredes. Como um espinho. Ou um espinho envenenado. Mas pode haver mais de um espinho. Então eu corro agonizando, temendo que algo me arrebente as mãos ou os braços, mas querendo que isso acontece tão rápido que eu não possa nem ter tempo hábil para levar susto e ficar só com a parte da dor. Ou pode haver dois espinhos bem finos na altura das minhas órbitas oculares numa parede me esperando para penetrar em meus olhos gelatinosos e me triturar os cérebros no momento em que eu supostamente fosse bater a testa novamente em uma nova superfície desgraçada. Então eu paro de correr e volto a andar. Uma mão temerosa esticada na frente e outra temerosa grudada na parede.
            Coração a mil. Na garganta. Traqueia se fechando. Engolindo seco. Têmporas se comprimindo.
            Solidão. Estou só. Solitário.
            Eu grito. Eu grito muito.
            – Alguém me ajude! – berro.
            Ninguém responde e só ouço ecos e reverberações de meu lamento frouxo.
            – Socorro! – berro novamente. – Tenho medo de ficar sozinho!
            Nada. Nem ninguém. Antes aparecesse um espinho para que eu ficasse menos solitário... Mas que, por favor, não apareça um monstro sanguinário com visão noturna em algum ponto desse átrio medonho. Pelo amor de tudo o que é sagrado...
            – Alguém está aí? – ouço um som.
            Paro de andar. Não sei quantos milhares de metros já percorri.
            Escuto algo baixo, vindo de longe. Viro a cabeça por instinto em direção ao ruído, mas não enxergo nada porque, obviamente, está tudo escuro. Meu raciocínio está começando a falhar. Meu peito quer explodir. Viro a orelha em direção ao ruído, que agora está mais alto. É um gemido de alguém sofrendo. Não. Não é isso. É um rosnar... É uma criatura rosnando! A ferocidade de seu som se converte em babas raivosas na minha mente perturbada. Minhas pernas ficam bambas, quando eu deveria continuar correndo. O som de suas patas me lembram unhas riscando concreto. Com uma força descomunal vinda lá dos confins do terror pelo desconhecido eu, de alguma maneira, corro.
            A ansiedade se instaura.
            A selvageria aumenta atrás de mim, de modo que não consigo mais respirar. E no calor do momento acabo me afastando da parede, tropeço e dou de joelhos no duro, ergo-me num impulso animal e dou uma guinada para a direita, onde talvez a porta deveria estar. Ou um espinho. Ou outro tipo de armadilha. Só quero fugir desse demônio que me persegue. O que foi que eu fiz?! Que lugar é esse?!
            Meu pé pisa em falso e caio num buraco. Dou uma cambalhota no ar e me estatelo de mal jeito. Não sei a profundidade do troço, mas é bastante apertado e faz voltas. É úmido, e nele eu derrapo de ponta-cabeça. Um tobogã dos infernos. Cubro a tampa do meu crânio com os dez dedos e duas palmas. Encolho as pernas numa curva brusca, sempre descente, no receio de a criatura ainda estar me seguindo e desejar morder meus pés com suas presas podres e tetânicas.
            O tubo de pedra me joga pro lado, e pro outro, e me arrebento todo assim, virando que nem uma bola e já todo desorientado. O que é cima?! O que é baixo?! Estou caindo pra cima ou pro lado?! Embolo-me que nem um lixo.
            Choro sozinho. Ninguém sabe onde estou, ninguém vem me resgatar e não paro de cair.
            Aonde estou indo? Eu quero minha mãe... Eu quero colinho... Eu quero cafuné...
            Onde estou?! Cadê meus amigos?! Preciso de consolo emocional. Meu imo arde mais que meus hematomas e esfolados. Isso tudo fede – ou deve feder, porque não sei mais o que é odor e o que é tato.
            Caio de costas com brutalidade em uma superfície mais dura do que as das duas salas de antes. O tranco me faz morder a língua e engolir a lamúria. A vida me coage a cessar com todas as demonstrações de desespero por um instante, pois a dor é maior do que qualquer coisa. Tamanha é que depois de uns trinta segundos ou mais ou menos eu me apercebo de que estou em um lugar aberto e luminoso que nem o dia.
            Inclusive, eu vejo o Sol raiar.
            Aliás, estou na cidade, de volta à sociedade.
            Rolo para pegar uma posição boa e me levanto de supetão, foda-se a vertigem que vem disto. Estou a salvo... Também não estou mais sozinho...
            Avisto pessoas.
            Pessoas!
            – Socorro! – grito a elas, indo a elas. – Alguém me ajude!
            Mancando, vejo que me locomovo numa calçada. Há prédios nos arredores. Esse lugar me é familiar.
            – Oi, vocês aí! – digo a um grupinho.
            É a cidade onde eu moro. Olho para trás só para me certificar de que nenhum animal carnívoro faminto está na minha cola. Olho para baixo para averiguar se há ou não buracos na calçada. Parece ser mesmo a minha cidade onde eu desemboquei com violência a partir do surreal.
             – Oi! – falo, agora em frente ao grupinho de pessoas. Arfo. Estou todo rasgado.
            São dois homens e três mulheres conversando. Fora eles, não observo mais nenhum ser humano aqui.
            – O que está acontecendo? Vocês viram a partir de onde eu cai? – pergunto. – Eu surgi do nada, foi estranho.
            Os cinco indivíduos conversam, me ignorando.
            – Olá?
            Encaro um deles, mas ele não desvia o olhar para mim e dá risadas de uma piada que uma loira bonita contou. Sorrio um pouco, porque foi uma piada boa mesmo.
            – Nossa, que engraçado! – dirijo-me à loira, tentando ser amigável.
            A loira não me olha e todos continuam me ignorando. Fico meio sem jeito e saio de perto à francesa, coçando a nuca pulsante. Ao virar, surge um idoso em minha frente e eu dou uma topada com ele. Quase o derrubo no chão, mas o seguro para que isso não aconteça. Fico totalmente sem jeito.
            – Desculpa, senhor. – digo, franco. – Eu não vi o senhor aí.
            Ele me olha com seus olhos úmidos por trás das lentes garrafais dos seus óculos, e não diz nada. Prossegue com seu caminho, me deixando para trás de maneira indiferente. Acompanho-o com a cabeça, perplexo, parado, e ele vira uma esquina. Quando viro meu corpo novamente, em sentido aonde o idoso veio, há um homem parado com as mãos na cintura, me encarando.
            Eu sinto que ele me enxerga, e por isso me apresso até ele.
            – Oi, senhor! – estendo o braço para cumprimentá-lo. – Meu nome é Francisco e eu estou meio perdido. Você poderia me dizer onde estou?
            Seu olhar me atravessa como se eu fosse um inútil indigno de ser respondido. Meu braço pendente é completamente ignorado, e o cara faz um sinal de negação com a cabeça, como se eu tivesse feito algo errado.
            Estou ficando nervoso.
            – Senhor, eu fui educado com você, o que foi que eu fiz pra você?! – pergunto, preocupado. – Só me diga se não está sentindo um clima meio diferente no ar, um peso, não sei, algo esquisito, porque está muito estranho o meu dia hoje. – digo. Ele não responde. Insisto. – Sério, me ajude um pouco, estou precisando de ajuda. Depois eu paro de incomodá-lo, eu prometo. Só quero uma informaçãozinha, coisa rápida.
            – Suma daqui. – ele profere assertivo, com tom de desprezo.
            Um calafrio percorre meu corpo. O sorriso esmaece em meu rosto.
            – Mas eu não fiz nada... – digo para mim, pois o homem se incomoda e volta para dentro do barzinho.
            Sinto-me sozinho. Solitário. Solidão. Só.
            Viro à esquerda e vejo pessoas do outro lado da calçada. Estão paradas em frente a uma livraria genérica sem nome. Riem demais consigo mesmos. Dou um passo em direção a eles, mas hesito muito e por fim não atravesso a rua. Sinto que é muito errado ir atrás deles e perturbar seu lazer. Será que estou cego pela ansiedade e estou fazendo algo errado? Estou sendo ofensivo? Sou impertinente?
            – Você é muito inseguro. – uma voz feminina diz, ao meu lado. – Saia daqui.       
            – Mas... – digo, engasgando as palavras e querendo chorar. Ofendido. – Eu não fiz nada...
            A mulher se aproxima de mim, altiva. Encara-me por cima.
            – Ninguém gosta de gente que nem você. Você é muito ansioso. Saia daqui.
            Uma lágrima sai pelo meu olho. Sinto-me humilhado. Sinto que a perdi antes mesmo de tê-la perdido, porque minha mera existência é inconveniente. Giro o corpo para me afastar dela, com o choro querendo explodir, e de repente várias pessoas estão vindo para cá, caminhando em ritmo normal do cotidiano. Estão apressadas e acabam me atropelando. Sou jogado para um lado pelo fluxo. Um fluxo contrário aparece do nada e me joga para o outro lado, me esmagando em um sanduíche de pessoas. Ninguém liga para o que estão fazendo comigo. Estou precisando de carinho...
            Buzinas do dia-a-dia brotam no ar a partir do nada, e um vozerio urbano se adensa.
            Alguém me joga dentro de um beco e eu caio deitado. Aponta-me o dedo.
            – Cale a boca! – grita com ódio.
            – Por fa-favor, não brigue comi-comigo... – digo, a face cheia de lágrimas pesadas e aflito amargamente. – Eu só quero um pouco de atenção... Eu sou caren-carente... Não faça assim comigo...
            – Você é um bosta! – o homem me mete um chute na barriga. Perco o fôlego e me retraio em mim. – Ninguém quer saber de imperfeição! Você está manchando essa sociedade! – agarra-me pela gola e atira-me em meio às latas de lixo, que me cobrem de porcarias fétidas, restos de frutas podres, fraldas usadas, absorventes usados, restos de comida, papel higiênico usado demais, dentre outras tranqueiras. – Fique aí, onde você pertence, seu lixo! – cospe em minha cara. Choro se confunde com chorume e saliva alheia. O homem levanta a mão, ameaçando me dar um tapa humilhante e subjugador, mas eu me encolho contra a parede e ele ri. – Patético...
            Ele sai dali sem dizer mais nada. Sem dizer desculpas. Todo cheio de pompa e convicto de que fez a coisa errada. Levanto-me aos prantos, todo machucado e cheio de dores de todos os tipos e volto à calçada movimentada. Absolutamente todos ignoram minha presença. Não posso contar com ninguém. Meu coração foi ferido. Fui excluído só porque, no fundo, não sou impenetrável que nem eles, inabalável que nem eles, alegre e autossuficiente que nem eles, egoísta que nem eles, virtuoso que nem eles... Sinto solidão em meio às pessoas. Aos seres humanos...

Aos seres desumanos...